Brian Epstein, "faleceu vítima ao que parece, de excesso de drogas, ainda que se atribua igualmente o seu falecimento a um suicídio provocado por forte depressão".
Os Beatles estavam certos: quanto a qualquer celebridade viva se sentir lisonjeado pela aparição sem cachê na capa do seu álbum. E não menos curiosa era a expectativa dos Beatles diante do lançamento. Receosos, achavam que tinha ido longe demais, que a crítica não gostaria e o público não estava preparado. Desta feita enganaram-se. Num clima de aclamação geral foi recebido o tão esperado "Sgt. Pepper´s" que correspondeu à espera do público cativando sua imaginação como nenhum outro disco fizera. Não por ser um álbum conceitual, diferente ou impossível de ser reproduzido ao vivo que "Sgt. Pepper´s" obteve o êxito desejado. O impacto residia na perfeita síntese da trip existencial dos anos 60, traduzida a inquietação, a liberdade em letras e sons que capturavam o otimismo do espírito da época, outros álbuns psicodélicos, ficaram históricos, mas nenhum outro abria os portais de maneira generosa para o misticismo oriental, o power-flower , as reminiscências mais doses que nós guardamos nesta terra chamada infância de onde John, Paul, George e Ringo nos legaram a volta da percepção desativada após a tenra idade.
Cada década traz apenas um ou dois momentos autenticamente memoráveis. Em regra, só a guerra, ou uma grande tragédia, consegue penetrar nas preocupações de milhões de pessoas ao mesmo tempo para provocar uma emoção única e concentrada. E, no entanto, em junho de 1967, tal emoção surgiu, não da morte nem de nenhuma catástrofe, mas da simples audição de um disco. Existem, até hoje, milhares de britânicos e americanos; que podem descrever exatamente onde estavam e o que faziam na ocasião em que ouviram pela primeira vez o "Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band". Aquela música, tão poderosa como o assassinato de Kennedy ou o primeiro pouso do homem na Lua, evoca um tempo e um local exatos, uma emoção que os anos ou a idade não enfraqueceram. A lembrança é a mesma para todos - como retiraram o disco brilhante da sua colorida capa; como não podiam acreditar no que ouviam, inicialmente, e tiveram de tocar aquela música repetidas vezes . ( Shout! - Philip Norman).
Num dia quente de sol, Rosemary e eu fomos até o acampamento principal e encontramos a comunidade inteira reunida em volta de uma vitrola a pilha. Juntamo-nos a eles para ouvir pela primeira vez "Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band", obra que provavelmente melhor sintetizou o Verão do Amor. O álbum foi a declaração mais influente, através da mídia, das realidades múltiplas e tornou-se um clássico instantâneo da cultura de drogas. O demógrafo Landon Y. Jones afirmou que, quando esse álbum dos Beatles foi lançado em 1967, pelo menos um crítico o citou como "o mais próximo que a Civilização Ocidental chegou da unidade desde o Congresso de Viena em 1815". (Timothy Leary, em Flashbacks ).
Para muitos, "Sgt. Pepper´s" foi um evento que marcou época, o ingresso do rock nas artes maiores. Kenneth Tynan disse que esse álbum é um momento decisivo na história da civilização ocidental. No entanto, alguns críticos acharam que arte maior era justamente o que o rock não deveria ser.
A capa da "Time" era um reflexo do curioso fenômeno de 1967: os setores mais esclarecidos do Establishment começavam a adular os Beatles e toda a cultura (ou contracultura) que vinha atrás deles:
Eles lideram uma evolução em que o melhor dos sons atuais pós-rock se tornando uma coisa que a música popular nunca foi antes: uma foram de arte - "Revista Time" , na reportagem de capa sobre os Beatles, em que cita ainda uma visão freudiana, pelo psicanalista Ner Littner: Seu ritmo bem marcado parece trazer ecos das primeiras experiências significativas, como a serenidade fetal intra-uterina que reverbera repetitivamente na cadência das batidas do coração materno .
Um barômetro do nosso tempo - Suplemento Literário do "Times".
Um momento decisivo na história da Civilização Ocidental - Kenneth Tyna, crítico de cultura.
Um novo e dourado Renascimento da Canção - "The New York Times Review of Books".
A "day in the life" é a "Waste Land" dos "Beatles Jack Kroll". "Revista Newsweek" , compara as letras de Lennon & McCartney à poesia de T. S. Eliot.
Voltando a questão da arte maior, o crítico Nick Cohn perguntou O que existe de tão grande na arte? , insistindo em afirmar que os Beatles voaram para um limbo. Nick Cohn, preservava o espírito mais anárquico e básico do rock´n´roll futuramente não teria razões para maldizer sua interrogação, "Sgt. Pepper´s" jogou no ostracismo por uma década o rock´n´roll adolescente e depois da febre, o acid-rock teve de aumentar o volume e se transmutar em heavy-metal, o oposto do art-rock levado a exaustão depois dos Beatles, quando vários músicos julgaram-se tão talentosos como seus predecessores, mas os tempos eram outros.
Foi necessário uma década para no verão de 1976, as guitarras distorcidas e enérgicas como os grupos pré-Swinging London, voltarem a serem ouvidas e gravadas nos estúdios acostumados ao experimentalismo, nesse ponto Nick Cohn, poderia orgulhar-se ao lado de todas aquelas bandas que as flores enterraram...
Jack Kroll, que comparou "A day in the life" com "The Waste Land", o poema apocalíptico de T.S. Eliot encontraria eco na sua comparação segundo ele mesmo na "frase magnífica" de Ian MacDonald, o autor de "Revolution in the head", iluminadora pesquisa sobre a carreira dos "Beatles":
O fato de a canção atingir sua meta transcendental através de um confronto potencialmente desilusionador com o mundo "real" é justamente o que torna tudo tão comovente.
O mais inovador e revolucionário disco das décadas de 60 e 60, "Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band", é um marco cultural do nosso século por três razões: foi o primeiro álbum conceitual de rock a alcançar o hit-parade; nele os "Beatles" mostraram que um estúdio podia fazer mais coisas do que gravar simples canções e também porque eles sintetizaram em um álbum tudo aquilo que o mundo musical da época pensava dentro de padrões que até hoje não foram contestados.
Richard Goldstein, guru pop do avançado "Jornal Village Voice", de Nova York, chamou o disco "Sgt. Pepper´s" de "fraudulento".
As canções de "Sgt. Pepper´s" demonstram uma compreensão dos princípios da lavagem cerebral. Declaração da Organização ultra-cristã e direitista John Birch Society.
Havia uma época em que eu era o avant-gard dos "Beatles" - mais ou menos na época de "Sgt. Pepper´s" . O LP foi basicamente minha influência. Foi minha a idéia de fazermos de conta de que éramos outro grupo... John estava vivendo coma mulher e o filho em Weybridge e eu era o solteiro do grupo - morando sozinho em Londres, ligadíssimo no que estava se passando. Foi uma época muito rica. Eu costumava fazer filmes de oito minutos e os projetava quadro a quadro - flick, flick, flick , - duravam uma hora quando deveriam durar no máximo dez minutos. Lembro-me ter mostrado os filmes para Keith Richards e Antonioni - ele estava em Londres filmando "Blow Up". Foram noitadas boas. Foi eu quem introduziu John a muitas das coisas que estavam acontecendo. Na verdade, muitas pessoas não sabem mas Yoko veio a minha casa antes de ter conhecido John. Foi para um lance de caridade - um acontecimento meio avant-garde , alguma coisa a ver com John Cage ou algo assim - e ela queria letras e manuscritos. É horrível, mas eu não lhe dei nenhuma de minhas letras - egoísmo, sei lá. Mas eu lhe disse, "Tem um amigo meu que talvez possa lhe ajudar. Meu camarada, John". (Paul McCartney, Rolling Stone , 11/09/1986. Entrevista a Kurt Loder.)
"Sgt. Pepper´s" foi chamado de álbum conceitual, isso quando já tínhamos acabado. As pessoas diziam: "Uau! Que álbum conceitual é isso aí". E nós: Que é isso? O que significa álbum conceitual? É um monte de música? "Não", diziam eles, tem profundidade, tem conceito!. Não entendi até hoje. Escolher um tema é apenas algo um pouco diferente, torna as coisas mais fáceis. Tendo um tema, você pode jogar com as músicas, fazer ligações. No final, a gente acaba mudando a ordem de tudo - ( Paul McCartney, Amiga , 09/1979).
Vinte e sete anos depois de lançado na definição de George Martin, seu produtor e arranjador: "Uma granada de fragmentação musical que explodiu com um impacto que ainda se faz sentir". Nenhum exagero. Esta declaração, pertence ao livro Paz, amor e "Sgt. Pepper´s", olhar crítico que George Martin, arranjador de todos os discos dos Beatles, exceto "Let it be" , lançou sobre os estúdios de Abbey Road nos seis primeiros meses de 1967 e disseca o álbum que expandiu as fronteiras do pop para os limites até então inauditos.
George Martin precisou de seis meses para produzir "Sgt. Pepper´s" , e quase três décadas para explicá-lo em 194 páginas.
Em "Sgt. Pepper´s", George Martin, vetou "It´s only a Northern Song", uma música de George Harrison, "porque não estava à altura do disco" e fez cara feia para Lovely Rita...
"Pepper´s articulou aquele sopro de vida e energia que varreu a Grã-Bretanha nos anos 60", opina. Aliás, este caleidoscópio de sons e imagens, letras impenetráveis, deu origem a centenas de interpretações. As iniciais de "Lucy in the Sky with Diamonds" seriam um acróstico para LSD? George Martin ignora essa e outras histórias, mas, confirma que eles usavam drogas "fora do estúdio" e encerra a questão com uma definição cúmplice e sábia de "Sgt Pepper´s": "O mundo olhou para ele e viu o que quis". E como olhou e ouviu.
Felizmente diferente do disco, o livro tem narração simples e linear. A pretexto de revelar os bastidores do álbum, George Martin monta uma bela crônica sobre sua convivência com os Beatles. Revela, por exemplo, que o disco custou 25 mil libras, preço hoje de uma fita de demonstração, e consumiu 700 horas de gravação. Ele queixa-se da pão-durice da EMI, mesmo diante de um grupo que lhe rendia milhões. As gravações começavam sempre às 19h e George Harrison tinha que arrombar o cadeado da geladeira do estúdio para conseguir leite para o chá.
No final do livro Martin faz uma comparação entre os discos dos Beatles. E afirma que "Sgt. Pepper´s" não é o melhor disco dos Beatles, mas disparado o mais inovador. Explodiu barreiras, aproximou o clássico do popular e ganhou lugar na história.
E é o único disco dos "Beatles" em ouro e no leilão da Sotheby Park Bernet, uma cadeia de lojas do Japão arrematou o disco.
Quando o LP "Sgt. Pepper´s" está concluindo uma estadia de quinze semanas em primeiro lugar entre os mais vendidos, Brian Epstein comete suicídio. Ele tinha-os iniciado em muitas coisas: a estar em palco, na linguagem e, mais tarde, no ácido. "Epstein já tomava LSD há muito tempo quando os Beatles se começaram a interessar por isso".
"Preciso continuar a tomar conta dos meninos. Não posso deixar que eles tomem contato com o jogo sujo dos negócios, com o lado desonesto do show-business. Caso contrário, eles podem até dissolver o grupo..." (Brian Epstein).
O grupo nunca mais será o mesmo, mas mesmo assim começam os trabalhos do terceiro filme do grupo, "Magical Mystery Tour". A BBC apresenta o filme feito especialmente para a tevê um dia depois do natal de 1967.
(Mário Pacheco)
Fonte: www.dopropiobolso.com.br
Data Publicação: 28/10/2005
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